Artigo 6 – Conhecendo o turismo de aventura para uma prática segura e prazerosa
Carolina Chagas e Tiago Valois
13 de fevereiro de 2015
O mercado da aventura é um dos segmentos que mais se desenvolve em todo o mundo. No Brasil, a cada dia surgem novos adeptos dos esportes de aventura devido a ser um país de dimensões continentais com variados cenários naturais para estas práticas. São pessoas que praticam periodicamente nos finais de semana, férias e feriados e sempre estão em busca de novos destinos turísticos. As práticas vão desde as atividades mais leves como caminhadas em trilhas até aquelas atividades mais radicais com elevadas doses de adrenalina como as corridas de aventura.
Apesar de todo o crescimento das atividades de aventura, ainda existe uma visão turva de conceitos como esportes radicais, esportes de aventura, turismo de aventura e ecoturismo. Estes termos constantemente se confundem, não ficando claro o que caracteriza e diferencia um do outro. Percebe-se que essa falta de discernimento sobre o que de fato é cada atividade dificulta o crescimento do segmento. Grande parte das pessoas ainda tem receio em “se aventurar” por uma trilha ou fazer um rapel numa cachoeira, talvez por desconhecerem as possibilidades e benefícios das aventuras e também por perceberem uma imagem estereotipada de que aventura é radical, perigosa ou somente para atletas.
O propósito então deste artigo é fazer uma descrição concisa de cada termo da aventura, bem como transmitir dicas para se aventurar com segurança e também para conhecer lugares muito interessantes para as práticas de atividades de aventura no estado da Bahia.
O primeiro ponto a esclarecer são os conceitos de esporte de aventura e esporte radical. Segundo o Ministério do Esporte, esportes de aventura é “o conjunto de técnicas formais e não formais, vivenciadas em interação com a natureza, a partir de sensações e de emoções, sob condições de incerteza em relação ao meio e de risco calculado. Realizadas em ambientes naturais… como exploração das possibilidades humanas, em resposta aos desafios desses ambientes,…”. Já os esportes radicais são definidos como “o conjunto de práticas… realizadas em manobras arrojadas e controladas, como superação de habilidades de desafio extremo. Desenvolvidas em ambientes controlados,…”.
Assim, fica claro que as principais diferenças entre esportes de aventura e radicais estão nos locais onde são praticados e nos tipos de manobras. Por um lado, os esportes de aventura são praticados essencialmente na natureza, como, por exemplo, nas belíssimas trilhas da Chapada Diamantina, nos cânions da Chapada Norte, ou ainda no rafting em Itacaré, Costa do Cacau. Já os esportes radicais, como skate, patins, bicicross, basicamente diferem dos de aventura por serem realizados em ambientes controlados, isto é, em half-pipes, pistas pré-moldadas e construídas artificialmente, pistas de barro com obstáculos, sendo que as variáveis externas da natureza pouco influenciam nas atividades. Por exemplo, uma arena de esportes radicais pode ser construída dentro de um Shopping Center, que representa um ambiente bastante controlado.
Outros dois conceitos que precisam ser diferenciados são os de esporte de aventura e turismo de aventura. Mas, antes, é fundamental compreender o conceito de aventura. Do latim, adventura, significa “o que há por vir”, ou seja, é esperar o inesperado, é agir sem ter um resultado definido. Além disso, aventura nos tempos modernos está muito relacionada com a natureza e atividades ao ar livre.
Conforme o Ministério do Turismo, Turismo de Aventura é definido como “… movimentos turísticos decorrentes da prática de atividades de aventura de caráter recreativo e não-competitivo”. Já a Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT (www.abnt.org.br), através de seu Subcomitê de Turismo de Aventura, engajada no processo de normalização no Brasil, definiu o Turismo de Aventura sendo “… atividades oferecidas comercialmente, usualmente adaptadas das atividades de aventura, que tenham ao mesmo tempo o caráter recreativo e envolvam riscos avaliados, controlados e assumidos”. A ABNT ainda ressalta através de três notas o seguinte: 1) Riscos assumidos significam que ambas as partes devem ter consciência dos riscos envolvidos; 2) As atividades de turismo de aventura podem ser conduzidas em ambientes naturais, rurais ou urbanos; 3) As atividades de aventura freqüentemente têm como uma das suas origens os esportes na natureza.
Sendo assim, nota-se que o principal fator de diferenciação do turismo de aventura em relação a esporte de aventura é o seu caráter comercial, isto é, quando é oferecido no mercado para clientes que possuem nenhum ou pouco grau de qualificação técnica para a sua execução. Por exemplo, praticar mountain biking, sem comprar um pacote numa agência se manifesta como uma atividade esportiva. Por outro lado, adquirir um passeio de mountain bike de Trancoso à Praia do Espelho manifesta uma relação comercial enquadrada como turismo de aventura.
Quando se fala em ecoturismo, segue-se a mesma idéia do turismo de aventura no que tange ao local onde é realizado (na natureza, áreas rurais e tradicionais) e a algumas atividades praticadas, como o trekking. O que o ecoturismo prevê de adicional é que possui como premissa o turismo sustentável, isto é baseado nas dimensões ambientais, socioculturais e econômicas. É definido pelo Ministério do Turismo como “um segmento da atividade turística que utiliza, de forma sustentável, o patrimônio natural e cultural, incentiva sua conservação e busca a formação de uma consciência ambientalista através da interpretação do ambiente, promovendo o bem-estar das populações”.
Percebe-se que o turismo de aventura está relacionado diretamente com as práticas comerciais das atividades de aventura. E o ecoturismo, além de ter este componente comercial, prevê o desenvolvimento sustentável das regiões e populações locais, isto é, o envolvimento e benefícios à comunidade local é o foco da atividade.
Concluindo todas as definições, fica claro que são conceitos muito próximos e que possuem diversas características em comum, porém possuem fatores diferenciadores bem determinados que delimitam cada atividade.
Agora, independentemente da posição, seja como esportista, seja como turista de aventura ou como prestador de serviços, é preciso ter um mínimo de conhecimento necessário para que surpresas desagradáveis como acidentes não ocorram.
E foi justamente visando prevenir acidentes e também tornar o País competitivo no exterior que o Ministério do Turismo, por meio do Projeto de Normalização em Turismo de Aventura, executado pelo Instituto de Hospitalidade (www.hospitalidade.org.br), secretária do Comitê Brasileiro do Turismo da Associação Brasileira de Normas Técnicas (www.abnt.org.br), considerado o fórum nacional de normalização, iniciou em 2003 um processo de desenvolvimento de Normas Técnicas para o turismo de aventura. Atualmente, já foram desenvolvidas mais de trinta Normas com temáticas transversais a todas as atividades como a de Sistema de Gestão da Segurança e a de Competências Mínimas dos Condutores, além de Normas específicas para certas atividades, como rafting, fora-de-estrada, espeleoturismo, cicloturismo, cavalgada, técnicas verticais, entre outras.
O processo de implementação das Normas é voltado para o turismo de aventura, isto é, empresas e profissionais que comercializam atividades de aventura. Apesar de ser voluntário, já está se constituindo como um diferencial e principalmente como um componente de credibilidade no mercado. Empresas que têm normas implementadas conseguem sistematizar suas atividades e implementar controles operacionais preventivos, minimizando assim os riscos envolvidos.
Portanto, para quem quer começar a praticar aventura de forma segura é importante conhecer os dez mandamentos do turista de aventura consciente, da Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura (www.abeta.com.br), que são:
1 – Peça referências e CONFIRA se a empresa que está oferecendo o serviço está formalizada e se tem alvará de funcionamento.
2 – Verifique se a empresa oferece apólice de seguro que cubra atividades de aventura e natureza.
3 – Verifique se a empresa conhece e aplica as normas técnicas brasileiras para a atividade que oferece. Pergunte à empresa se ela tem um Sistema de Gestão da Segurança implementado, conforme a norma ABNT NBR 15331.
4 – Os equipamentos devem possuir selo de qualidade, internacional ou nacional.
5 – Lembre-se: sempre que tirar os pés do chão esteja de capacete e sempre que entrar na água esteja de colete.
6 – Aja de acordo com as regras ambientais em sua aventura: não faça fogo, não contamine o rio e ande sempre por trilhas demarcadas. Produza pouco lixo e traga-o de volta.
7 – Confira o estado do ESTOJO de primeiros socorros que a empresa está levando e tenha na sua mochila seus remédios específicos.
8 – Seja responsável, conheça e respeite seus limites.
9 – Hidrate-se, alimente-se e mantenha-se aquecido. A melhor pessoa para cuidar de você é você mesmo!
10 – Conheça o “Programa Aventura Segura” (www.abeta.com.br) e descubra o Brasil de um jeito novo! Busque empresas aderidas ao Aventura Segura nos destinos. Pratique TURISMO DE AVENTURA COM CONSCIÊNCIA.
Além disso, deve-se estar atento com relação ao vestuário. São indicados tênis ou bota confortável e com solado antiderrapante, roupas de tecido leve e de fácil secagem, boné ou chapéu, protetor solar e óculos escuros para se proteger do sol e, em casos de frio e chuva, utilizar capas de chuva, casacos leves e o neoprene também são indicados em casos de atividade na água. Para atividades de caminhada, a mochila deve ser do tamanho da duração da caminhada – até 30 litros para caminhadas de um dia e acima disto para caminhadas de mais de um dia. Além disso, levar cantil, lanterna (as head-lamps – lanternas de cabeça – são bastante adequadas), saco de dormir, isolante térmico e barraca (para percursos que envolva pernoite em lugares naturais), sem falar na bússola para os esportistas aventureiros que gostam de navegar e se orientar usando mapa.
Com relação à alimentação são indicados itens que representem pouco peso na mochila, mas que garantam bastante energia como sanduíches, barra de cereais, biscoito salgado e doce, frutas (banana, maçã, tangerina). Além dos alimentos sólidos, hidratar-se é premissa básica para as aventuras, por isso, água, água de coco, bebidas isotônicas, sucos, são líquidos importantes.
Diante desse esclarecimento conceitual e de posse destas dicas, o leitor terá mais tranqüilidade para fazer escolhas de atividades a praticar e destinos a visitar. O Vale do Pati (na Chapada Diamantina), o Rio de Contas (em Itacaré – Costa do Cacau), as cavernas em São Desidério e Barreiras (Caminhos do Oeste), o Parque Estadual das Sete Passagens (em Miguel Calmon – Chapada Norte) e a Reserva da Sapiranga (em Praia do Forte – Mata de São João, Costa dos Coqueiros) são algumas referências de atrativos turísticos para serem conhecidos. O fato é que seja turista, seja esportista de aventura quanto mais a pessoa se informa e se “equipa” de conhecimentos, técnicas e equipamentos adequados, mais segurança terá e, consequentemente, mais prazerosa será a atividade. E algo inevitável acontecerá, estará literalmente viciado nessa fantástica experiência: praticar aventura!
