Artigo 4 – Sistema de Gestão da Segurança: turismo de aventura levado a sério
A importância da implementação do Sistema de Gestão da Segurança para a sustentabilidade e profissionalismo do setor.
Por Carol Chagas, Turismóloga, Sócia e Diretora da DAVENTURA
21/07/2026
“Aventura sem gestão da segurança é improviso. Aventura com gestão é mercado levado a sério.”
Imagine uma família que planeja, há meses, uma viagem para estarem juntos. Pai, mãe, filhos — cada um com sua rotina acelerada, suas telas, suas agendas. Eles escolhem, por estilo de vida, o contato com a natureza. Querem se reconectar. Querem viver experiências e aventuras lado a lado, criar memórias que não cabem em uma foto de celular. Pesquisam, leem opiniões, assistem a vídeos, escolhem o destino com cuidado. Decidem o lugar. Reservam. Enfim, ousam se aventurar.
Qual você acha que é a intenção dessa família? Ninguém compra um pacote de turismo de aventura esperando se machucar. Ninguém coloca seus filhos em uma tirolesa imaginando que o equipamento pode falhar. A intenção é clara: diversão, conexão, superação compartilhada — contato com o que há de mais bonito e marcante na natureza.
Agora, pergunte-se: o quanto essa família, por mais que pesquise, informe-se e leia avaliações, realmente conhece sobre segurança para decidir se uma prática é segura?
A resposta, quase sempre, é: muito pouco. O turista confia no operador. Confia no site bonito, nas fotos impactantes, no atendimento acolhedor do vendedor. Confia que, se a atividade está sendo oferecida comercialmente, então alguém garantiu que ela é segura. E essa confiança legítima é, com frequência alarmante, a única coisa entre a família e um acidente evitável.
É exatamente aqui que uma experiência memorável se define — para o bem ou para o mal. E nesse momento, estabelece-se a diferença entre uma operação profissional e uma operação amadora. E é por isso que o Sistema de Gestão da Segurança (SGS) existe.
Má conduta que mancha o segmento
Agora imagine que essa mesma família chega ao destino. O condutor é simpático, os equipamentos parecem em ordem, o cenário é deslumbrante. Eles confiam e seguem para a aventura. E no meio da atividade, a realidade de uma operação sem gestão se revela: um procedimento não é seguido, um equipamento que ninguém inspecionou, dá problema, um plano de emergência que nunca existiu — ou que nunca foi testado — se mostra inútil. E o caso se torna noticiário. Isso não é ficção. É o cenário que tem manchado o segmento repetidamente.
O fato é que o turismo de aventura e o ecoturismo são um dos segmentos que mais crescem no Brasil. Crescimento, porém, sem estrutura, gera consequências. Ao longo dos anos, noticiários repetem uma narrativa preocupante e trágica: acidentes por falha de procedimento, mau uso de equipamento, condutores sem capacitação liderando grupos e atividades de alta complexidade, empresas operando sem plano de emergência… Esses episódios não são acasos. São o resultado direto de uma operação sem gestão — onde a segurança é tratada como algo intuitivo, no “achismo”, o famoso “vai assim mesmo”. Em vez de ser sistematizada, documentada e continuamente melhorada. E cada acidente repercutido na mídia não atinge apenas a empresa envolvida: ele contamina todo o segmento, minando a confiança do consumidor e alimentando a falsa equivalência entre turismo de aventura e “atividade irresponsável”.
A distinção é fundamental. Turismo de aventura bem operado é uma atividade calculada, gerenciada e segura. A diferença entre uma experiência inesquecível e uma tragédia está na existência — ou ausência — de um Sistema de Gestão da Segurança.
O legado do Programa Aventura Segura
Esse tema não é novo para nós, mas a cada noticiário reacende a temática: qual a segurança do turismo de aventura no nosso país?
O Brasil não começou agora nessa jornada. Em 2006, foi lançado o Programa Aventura Segura, uma parceria entre a ABETA, o Ministério do Turismo e o SEBRAE Nacional. Pioneiro na estruturação do segmento, o programa contribuiu para o desenvolvimento turístico de 17 regiões em 13 estados brasileiros, transformando o turismo de aventura em fonte de desenvolvimento econômico qualificado.
Construído sobre três pilares — normalização técnica, capacitação de pessoal e certificação voluntária de empresas —, o programa também impulsionou a formação de Grupos Voluntários de Busca e Salvamento (GVBS) e a criação de uma cultura de segurança ainda incipiente no país. Seu legado é tangível: empresas certificadas, condutores reconhecidos profissionalmente e um arcabouço normativo robusto. Hoje o Brasil conta com mais de 50 normas ABNT voltadas ao turismo de aventura, cobrindo desde mergulho recreativo e montanhismo até rafting e tirolesa.
Mas, o que é o SGS e por que ele importa
O Sistema de Gestão da Segurança (SGS) é um conjunto estruturado de práticas, processos e procedimentos que uma empresa adota para gerenciar os riscos de suas operações de turismo de aventura. Baseado na norma ABNT NBR ISO 21101, o SGS não é um manual estático — é um sistema vivo e dinâmico de melhoria contínua.
O SGS estimula a empresa a conhecer suas atividades sob a ótica da segurança, controlar os riscos e aspectos influenciadores e desenvolver uma mentalidade de melhoria contínua, visando, cada vez mais, proporcionar uma operação segura para todos os envolvidos. O sistema, além de reduzir a probabilidade de os riscos se concretizarem, planeja mecanismos de resposta rápida e eficiente caso o pior aconteça.
E é aqui que cabe derrubar o mito mais crítico do setor: “minha atividade não é perigosa”. Essa frase — dita ou pensada por alguns empreendedores — é o ponto de partida de quase todos os acidentes. Toda atividade de turismo de aventura é fonte de risco, por natureza. Segurança não é ausência de risco: é conhecer e controlar os riscos. O empreendedor que reconhece isso não é pessimista — é profissional. É impossível gerenciar o que se recusa a enxergar.
Os desafios que travam a adoção
Apesar dos avanços, a realidade do pequeno empreendedor de turismo de aventura é dura. A maioria das empresas do segmento é composta por micro e pequenos negócios, muitos localizados em regiões remotas que, mesmo com a internet, ainda assim, está longe do acesso à informação especializada.
Os obstáculos são conhecidos e se entrelaçam: muitos empreendedores pouco sabem sobre as normas técnicas aplicáveis à sua atividade — têm dificuldade até mesmo de acessá-las e, portanto, se “veem perdidos” para implementá-las. Quando conseguem acesso, deparam-se com a complexidade normativa: as normas ABNT são documentos técnicos densos, cuja leitura e interpretação de requisitos como os da ABNT NBR ISO 21101 podem ser intimidadoras para quem não tem intimidade com o tema. Somam-se a isso os custos do processo de implementação e certificação, que envolvem consultoria, auditorias, adequações estruturais e formação de pessoal — investimento que, sem apoio, retarda a adesão da maioria das pequenas empresas. E há, ainda, a barreira cultural: muitos empreendedores operam há anos “sem nunca ter acontecido nada” e enxergam a gestão da segurança como burocracia desnecessária, não como ferramenta de melhoria da sua operação e proteção dos envolvidos.
Obrigação que se transforma em vantagens
Antes de falar de benefícios, é preciso dizer uma verdade que muitos empreendedores ignoram: a implementação das normas técnicas de turismo de aventura não é opcional — é lei. A Lei nº 11.771/08, conhecida como Lei Geral do Turismo, regulamentada pelo Decreto nº 7.381/10, estabelece que os prestadores de serviços turísticos de aventura devem cumprir as normas técnicas brasileiras aplicáveis às suas atividades. Em outras palavras, não se trata de escolha ou diferencial: trata-se de cumprimento da lei. E, embora a certificação do Sistema de Gestão da Segurança seja voluntária, as normas técnicas que a sustentam são exigência legal para a operação.
Dito isso, cumprir a obrigação não precisa ser um peso — pode ser uma alavanca. O retorno concreto de adotar as normas técnicas e implementar o Sistema de Gestão da Segurança se traduz em pelo menos seis benefícios diretos:
. Melhoria da segurança: o objetivo primário, que protege vidas e reduz a probabilidade de incidentes e acidentes.
. Melhor relacionamento com seu cliente: o turista percebe quando a operação é profissional e confia mais.
. Educar o mercado: a normalização transforma a comunicação em ferramenta pedagógica, alinhando expectativas e responsabilidades dos turistas e parceiros.
. Valorização do seu pessoal: equipe capacitada, com EPIs em dia e reconhecida profissionalmente, atua com mais orgulho e competência.
. Melhoria de processos: a operação deixa de depender da improvisação e passa a ser sistemática, documentada e otimizada.
. Envolvimento de todos: a segurança deixa de ser responsabilidade de uma pessoa e se torna cultura organizacional.
Esses seis pontos não são abstrações. São resultados mensuráveis que empresas qualificadas experimentam na prática. Eles respondem, de antemão, à pergunta que todo empreendedor faz quando ouve falar em SGS: “Isso vai trazer retorno para o meu negócio?”. Sim, traz. E de formas que vão muito além de evitar processos judiciais.
O Programa Aventura Natural
Reconhecendo a importância do tema e os desafios da implementação, o SEBRAE lançou em 2023, o Programa Aventura Natural — uma iniciativa com foco na viabilização prática da implementação. O programa oferece capacitações, consultorias e subsídio para que micro e pequenas empresas possam implementar e se certificar na norma.
Em algumas regiões, o SEBRAE subsidia até 70% dos custos de consultoria, tornando acessível o que antes era financeiramente dificultoso. A jornada de implementação acompanha o empreendedor passo a passo — desde o diagnóstico inicial até a auditoria interna, e à certificação. O programa tem demonstrado resultados concretos em estados como Goiás, Bahia e regiões como o Vale do Ribeira (SP), onde empresas já ostentam certificações internacionais.
O futuro
O Brasil já possui as normas — é referência mundial no tema —, a capacitação e o subsídio. O que falta é a decisão de tratar a segurança como alicerce do mercado. Para tanto, iniciativas de conscientização de prestadores de serviços e turistas, bem como a ampliação de programas de incentivo no âmbito nacional — como o Aventura Natural e o retorno do Aventura Segura — são estratégias cruciais nesse estágio.
Para os empreendedores, o futuro do turismo de aventura passa por um consenso simples: o SGS não é sobre burocracia. É sobre responder, com rigor e honestidade: meus clientes e colaboradores estão seguros? Se algo der errado amanhã, eu sei o que fazer? Se a resposta for não, o momento de mudar é agora.
