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Interpretação do patrimônio aplicada ao ecoturismo: instrumento de atratividade e sustentabilidade para destinos turísticos.

Carolina Chagas[1]

 

Resumo

O presente trabalho se propõe a uma análise dos principais benefícios da Interpretação do Patrimônio aplicada ao turismo.

A Interpretação do Patrimônio como eixo norteador dessa obra, será abordada sob duas óticas: por um lado, o foco no turista, como a busca de uma melhor forma de comunicar a mensagem e, por outro, a comunidade receptora, como uma alternativa de sustentabilidade local.

Especificamente trata do nicho do ecoturismo, mostrando como essa atividade pode ser melhor desenvolvida através da Interpretação do Patrimônio, fazendo jus, na prática, ao seu conceito oficial que faz menção à proposta da sustentabilidade.

 

Palavras-Chave

Interpretação do patrimônio, interpretação do patrimônio ambiental, ecoturismo, turismo sustentável, agregar valor, experiência.

 

Introdução

Alguns autores costumam conceituar o turismo como a “indústria sem chaminés”. Isso se dá por acreditarem ser esta uma atividade que não causa, ou causa pouco impacto negativo à localidade. Essa visão gerou uma grande expectativa e investimento em torno da atividade turística. No entanto, hoje esse pensamento já está bastante contestado, pois muitas são as evidências que revelam a atividade turística como um verdadeiro vilão para uma localidade, pois “O turismo é considerado uma indústria e, assim como os demais setores da economia moderna, depende da apropriação e exploração da natureza e das sociedades locais.” (MENDONÇA, 1995:19).

Essa exploração tem acontecido de forma indiscriminada, como se pode perceber em alguns destinos no Brasil, no qual o turismo cresceu descontroladamente, gerando diversos impactos ambientais e sócio-culturais. Esse turismo tradicional, pautado num modelo massivo e aplicado de forma desplanejada, pontua uma grande contradição: como o turismo pode ser a grande solução para uma localidade, se ele mesmo gera a destruição dos seus principais recursos?

Conforme RUSCHMANN, “Um crescimento desordenado agride e descaracteriza o meio natural e urbano, fazendo com que os turistas busquem outras localidades, nas quais a originalidade das paisagens e a autenticidade das tradições ainda não foram afetadas pela sua adequação aos interesses comerciais da atividade.” (1997:163) Ou seja, “… é necessário um cenário que motive alguém a ir visitá-lo.” (Eliane Regina Ferreti, 2002). Portanto, um destino com alto nível de impacto não consegue constituir-se nesse cenário, pois não agrega valor à experiência do visitante. A partir do momento em que não oferece mais experiências autênticas, deixa de ser relevante de representar a possibilidade de aprendizado e de uma vivência marcante.

O fato é que, diante dos exemplos de destinos conhecidos, no meio ambiente e ambientais, artigo: Turismo ou meio ambiente: uma falsa oposiça natureza e a sociedade local têm sofrido mais perdas do que ganhos. E o turismo também. Nesse momento de reflexão, conceitos como turismo sustentável e ecoturismo surgem como uma abordagem mais branda do turismo e que apresenta uma maior responsabilidade quanto à sua aplicação. Mas como é possível alcançar o caminho da solução desses problemas que o conceito do turismo sustentável apresenta? Como chegar até ele?

 

Conceito de interpretação do patrimônio

Segundo conceito oficial da Asociación para la Interpretación del Patrimônio, a Interpretação do Patrimônio “… es el “arte” de revelar in situ el significado del legado natural y cultural al publico que visita esos lugares en su tiempo libre”. Para TILDEN “É uma atividade educacional que objetiva revelar significados e relações através da utilização de objetos originais, de experiência de primeira mão, bem como de mídia ilustrativa ao invés de simplesmente comunicar informações factuais.” (1957).

Portanto, a Interpretação do patrimônio se apresenta como uma forma de melhorar a qualidade da atividade turística. Trata-se de buscar alternativas para uma melhor forma de consumação da experiência, a fim de torná-la memorável. Para isso apresentarma eficiente e provocativa uma experia vistita97) tradiçno, fazendo com que os turistas busquem outras localidadapresenta  ferramentas que conseguem comunicar com eficiência uma mensagem; conseguem provocar o receptor que passa também a interagir no ambiente; tornam a vivência do visitante mais animada; relacionam a mensagem com a realidade dos visitantes; além de diversos outros benefícios.

VEVERKA, ao demonstrar a importância da Interpretação do Patrimônio, exemplifica, “Sem a Interpretação do Patrimônio, um lugar histórico é, aos olhos do visitante, apenas um lugar antigo.” (2003:24).

Na prática, a Interpretação do Patrimônio seria disponibilizar diversos instrumentos, como guia interpretativo, trilhas auto-guiadas, centro de visitantes, sinalizações interpretativas, tecnologias como áudio, vídeo, e diversos outros instrumentos que funcionem como catalisador da transmissão de uma mensagem de forma simples, clara e instigante. É necessário não apenas transmitir informações e dados ao visitante, mas também utilizar toda uma didática que os possibilite conhecer a essência daquele patrimônio, seja ele histórico, cultural ou natural.

É importante também ser apresentado o conceito de Interpretação do Patrimônio Natural, já que este está mais próximo da principal “matéria-prima” do ecoturismo: a natureza. Trata especificamente de como lograr essa comunicação eficiente, ao apresentar o patrimônio natural e cultural de um ambiente de natureza.

Segundo SAM HAM,  “La interpretación ambiental involucra la traducción del lenguaje técnico de uma ciencia natural o área relacionada em términos e ideas que las personas em general, que no son científicos, puedan entender fácilmente, e implica hacerlo de forma que sea entretenido e interesante para ellos.” (1992:3).

 

 

Expansão do conceito de interpretação do patrimônio

Esse trabalho foi iniciado relatando a preocupação aos impactos negativos que o turismo atual tem causado nos destinos. Essa preocupação aos problemas futuros que o turismo pode provocar é ainda mais séria quando se tem especificamente como foco o ambiente natural. Não apenas no que se refere à depreciação do meio ambiente, mas também aos impactos causados às comunidades locais que se mostram muito frágeis e susceptíveis a conflitos.

Com isso, todas as novas metodologias de desenvolvimento do turismo têm por necessidade urgente apresentar uma abordagem pautada na questão da sustentabilidade.

Nota-se, porém, na maior parte das definições existentes de interpretação do patrimônio, a apresentação desta como uma simples ferramenta de comunicação.

“A interpretação é um processo de comunicação desenvolvido para revelar o significado e os vínculos existentes entre nosso patrimônio natural e cultural, mediante uma relação com objetos, artefatos, paisagens e lugares”(INTERPRETATION CANADÁ, 1976).

Diante disso, é preciso, ampliar o que se entende por interpretação do patrimônio. Não apenas se ater a ela como uma simples ferramenta de comunicar uma mensagem. A interpretação do patrimônio pode ser muito mais “poderosa”, pois ”La interpretación ambiental es como hemos visto una adecuada herramienta de comunicación de cultura e conocimiento de la naturaleza, pero además é uma forma de garantizar la implantación e um desarrollo turístico sostenible em el medio rural…” (DARIES, 1994).

Portanto, se por um lado, como demonstram os conceitos, é uma eficiente forma de transmitir significados de um patrimônio, pois agrega valor à experiência do visitante; por outro, é necessário não esquecer que esta, principalmente no que se refere ao Brasil e ao terceiro mundo, pode viabilizar a sustentabilidade local, já que é um “processo que se baseia na comunidade” (GOODEY, 2002).

Inclusive, essa visão dialética visitante x comunidade, pode se tornar uma condicionante da outra, isto é, a sustentabilidade agrega valor à visitação, pois, segundo CORIOLANO “o lugar só pode ser bom para o turista, se for bom também para os seus habitantes”. (2003:116).

Essa idéia de priorizar o morador local em detrimento de uma melhor experiência para o visitante vai ao encontro do que propõe o ecoturismo. O sujeito ecoturista almeja além de estar em contato com a natureza, uma troca de experiências com formas de vida autênticas e diferentes da dele.

A The Ecotourism Society diz que o ecoturismo é “a viagem responsável a áreas naturais, visando preservar o meio ambiente e promover o bem estar da população local” Portanto, há uma valorização do território e da identidade, consequentemente, a comunidade local se sente melhor inserido no processo turístico.

O ecoturismo e a interpretação do patrimônio estabelecem uma inter-relação extremamente visível e que pode gerar bons frutos para uma localidade. Isso é comprovado através do conceito oficial de ecoturismo no Brasil.

“Um segmento da atividade turística que utiliza, de forma sustentável, o patrimônio natural e cultural, incentiva sua conservação e busca a formação de uma consciência ambientalista através da interpretação do ambiente, promovendo o bem-estar das populações envolvidas” (EMBRATUR, 1994, p.19).

Logo é bastante proveitosa a utilização da interpretação do patrimônio no ecoturismo como forma de se alcançar os objetivos propostos por esses dois conceitos.

 

A interpretação do patrimônio como forma de agregar valor ao ecoturismo

Muitos estudiosos da economia têm apontado, nos últimos tempos, transformações comportamentais marcantes no que se refere a consumo. Acreditam que a economia está agora saindo um pouco do foco nos produtos e serviços, e se concentrando no aspecto da “experiência”.  BENI (2005) arrisca inclusive apontar um quarto cenário econômico: além do setor agrícola, industrial e de serviços, existe agora o de experiências.

Terminologias semelhantes vêm sido dadas para esse fenômeno: economia da experiência, sociedade dos sonhos (dream society), todas afirmam o fato de que antes o homem consumia produtos, depois serviços e agora ele quer consumir experiências.

Estudos sobre o comportamento dos consumidores apontam para uma mudança psicológica profunda, “los motores de la sociedad cambian”, diz o consultor turístico, Eulogio Bordas (2003). Segundo ele, se antes os motores da sociedade giravam em torno da tecnologia, racionalismo, pragmatismo, conforto físico e inteligência racional, hoje estão em torno dos valores, emoções, histórias, conforto espiritual e inteligência emocional.

No turismo não é diferente. É notória também uma mudança comportamental de motivação e perfil do turista contemporâneo. Sobre isso, Mario Beni, tratando do novo mercado turístico, aponta como característica desse novo milênio: “ – alteração nos gostos e preferências da demanda, caracterizados pela busca de novas experiências, em vez de somente novos produtos/serviços, que conduzem à ampliação do mercado turístico e à consolidação de produtos/serviços capazes de gerar experiências novas em termos de demanda.” (2005:17).

As pessoas quando viajam estão em busca de vivências memoráveis, a sociedade dos sonhos é grande consumidora de informação, aventura, emoção, risco, esportes e buscam contato com a natureza. Digamos que a interpretação do patrimônio e o ecoturismo se completam perfeitamente diante dessa tendência e se tornam capazes de oferecer exatamente o que o mercado tem demandado.

A interpretação do patrimônio “é um misto de experiências de entretenimento educacional” (VEVERKA, 2003). Quando um turista vai a uma cidade do interior, ou vai fazer uma trilha auto guiada, ele quer não apenas viajar, descansar ou ter momento de lazer, ele também busca enriquecimento pessoal, informações e experiências, capazes de modificar a sua vida.  A viagem funciona como um catalisador de transformação interna, capaz de modificar a sua forma de ver e encarar o mundo. “Os turistas querem aprender, ver, fazer.” (VEVERKA, 2003).

O ecoturismo pode proporcionar toda essa vivência a esse novo consumidor, cada vez mais exigente, independente e ativo, pois reúne elementos naturais e culturais riquíssimos para serem utilizados.

O fato é que ainda é muito mal aproveitado esse potencial, sendo assim a atividade ecoturística se resume a uma simples caminhada na trilha, visita a uma cachoeira, com pouca informação e elementos que provoquem a curiosidade e que tornem aquele passeio/lugar especial.

“ Há outro fator motivador mais forte por trás de tudo isso e que pode ser reconhecido na autenticidade da experiência. Essa autenticidade só se legitima quando transmitida pela cultura viva da comunidade receptora.” (BENI, 2005).

Um trabalho muito interessante que busca justamente aliar a interpretação do patrimônio ao ecoturismo foi o desenvolvido pelas Faculdades Integradas Olga Mettig, através da Faculdade de Turismo da Bahia – FACTUR, no período de 2002 a 2004. A Interpretação do Patrimônio Natural e Cultural na Ilha de Itaparica – BA foi responsável pela formatação de diversas trilhas interpretativas ao longo de toda a Ilha. Essas trilhas são interessantes porque não apenas transmitem mensagens sobre as características do ecossistema – fauna e flora – do meio natural, como também aspectos relativos aos costumes, símbolos e imaginário da comunidade que vive no seu entorno.

Trabalhos como esse agrega muito valor à experiência do visitante, pois como mesmo relatou Cristiano Fontes, um dos coordenadores do projeto, em entrevista feita à autora, “O que vai diferenciar substancialmente uma trilha da outra é a significância daquela trilha, a historicidade, a construção poética da trilha. Muitas vezes as paisagens são semelhantes, os ecossistemas são semelhantes, mas as vivências são diferentes.”

No trabalho, todo construído através da mediação com a comunidade, foram resgatas e contextualizadas a cultura da pesca, o sagrado, os costumes, rituais e ações cotidianas específicas de cada povo. No final têm-se diversos produtos diferenciados e ricos, que representam não apenas um simples andar na trilha mas sim viver uma experiência autêntica.

Um desses produtos é a Trilha do Rio das Pedras, localizada em Barra do Gil. Durante todo o seu percurso os visitantes têm a oportunidade de vivenciar o ritual dos agueiros: um costume antigo de homens da região que utilizavam o caminho para ir buscar água para a família e amigos, seja no lombo de animais ou mesmo a pé. Trabalhos como esse, confirmam a força da interpretação do patrimônio em desvendar esses lugares e revelar histórias riquíssimas encravadas em lugares de cultura preciosa.

Lugares como Chapada Diamantina, Recôncavo Baiano e diversos outros pelo Brasil afora merecem um trabalho que revelem suas diversas histórias intrínsecas à sua paisagem como a do garimpo e a cultura da cana-de-açúcar, por exemplo. “Sem a interpretação os lugares de importância patrimonial são como conchas vazias de oportunidades perdidas.” (VEVERKA, 2003).

O principal valor agregado de um destino são os recursos naturais, humanos e culturais. Esses recursos estão escondidos nos caminhos por onde o ecoturista passa e merecem ser reveladas, trazidas à tona, pois se configuram no verdadeiro diferencial do lugar.

 

“Faz-se necessário então, pela pesquisa e interpretação do diferencial turístico, estimular a atenção, o “olhar”, o sentimento, a emoção, as sensações e percepções para que o turista possa experenciar o antes até então ignorado.” (BENI, 2005).

 

A interpretação do patrimônio como forma de sustentabilidade para o ecoturismo

O ecoturismo defende um relacionamento harmonioso entre o turismo e o ambiente cultural, natural e a sociedade. Essa idéia de ecoturismo, embasado na sustentabilidade, trás uma perspectiva diferente dos conceitos tradicionais já conhecidos do turismo, já que divide um foco que antes era apenas no turista, na viagem, passando a considerar principalmente o destino. Isto é, se antes o turismo significava uma viagem para fins de lazer, conceito esse apenas enfocando a ótica do turista, o ecoturismo amplia sua abrangência conceitual, relatando também os anseios do destino e de quem recepciona esses turistas.

“O desenvolvimento do turismo sustentável atende às necessidades dos turistas de hoje e das regiões receptoras ao mesmo tempo em que protege e amplia as oportunidades para o futuro. É visto como um condutor ao gerenciamento de todos os recursos, de tal forma que as necessidades econômicas, sociais e estéticas possam ser satisfeitas sem desprezar a manutenção da integridade cultural, dos processos ecológicos essenciais, da diversidade biológica e dos sistemas que garantem a vida.” (Organização Mundial do Turismo, 2003).

Ou seja, a atenção é dada a todo o processo, às inter-relações existentes e suas respectivas conseqüências. Dessa forma, sugere que turismo deve gerar, dentre outras coisas, preservação ambiental e cultural, ocupação e renda, respeito ao território e à identidade da comunidade local.

Porém o que é percebido no discurso e, principalmente na prática, da sustentabilidade e do ecoturismo, é que estes têm sido feitos de maneira fragmentada, isto é, sem considerar efetivamente os três pilares relevantes: social, ambiental e econômico.

Muitas vezes, um projeto que se intitula sustentável, tais como os mega resorts instalados ambiente de natureza e em constante construção por todo o país, apresenta o pilar da economia como o exclusivo meio de garantir a satisfação social. Com isso, apostam apenas na geração de emprego e renda, ignorando aspectos culturais, de identidade, costumes e território fundamentais para a satisfação da comunidade autóctone.

Alguns poucos questionamentos são suficientes para mostrar a ineficiência desse modelo que está se intitulando de “sustentável”. Por exemplo, será que o habitante local que morava naquela pacata vila da praia e que hoje se transformou num resort, foi consultado com relação à profunda transformação gerada pelo turismo em seu território? Será que ele teve o direito de decidir que tipo de visitante ele gostaria que conhecesse o seu espaço? Será que ele teve escolha, quando teve que deixar a sua atividade produtiva (e que representa a sua cultura) para compor um elemento operacional da atividade turística? Questões como esta comprovam o não o atendimento ao que realmente se espera quando se pensa no pilar social da sustentabilidade.

A interpretação do patrimônio, agora analisada sob a ótica da sustentabilidade, também comprova a sua eficiência quando aplicada ao ecoturismo, principalmente se ela for baseada na construção conjunta com a comunidade local.

Se uma localidade tem experiências depredatórias do turismo, na qual a comunidade local é totalmente excluída das decisões, estes passam a desacreditar nos efeitos positivos que a atividade pode trazer.

Agora, se o turismo é desenvolvido apoiado nas decisões locais, essas pessoas se sentem valorizadas, gerando um sentimento de envolvimento e importância no processo turístico que garante a qualidade do mesmo.

Segundo Cristiano Fontes, um dos responsáveis pelo projeto das Trilhas Interpretativas na Ilha de Itaparica, a ocupação e renda não foi o único objetivo do trabalho. O projeto gerou também o fortalecimento dos símbolos, vínculos entre as pessoas, força empreendedora, o exercício de pensar projetivamente e coletivamente para o futuro, auto conhecimento e aumento da auto estima.

Gustavo Farias, outro coordenador do projeto, pontua que o principal objetivo do projeto foi trabalhar junto à comunidade local revelando sua identidade cultural. Além de buscar preservar o patrimônio natural e cultural, despertar o sentimento de pertencer à Ilha e gerar ocupação e renda para a população local.

Através da interpretação, as pessoas acabam se descobrindo, descobrindo sua essência e passam a valorizar mais o seu patrimônio histórico e ambiental. “aquilo que a comunidade valoriza para si própria, o que ela deseja preservar, é possivelmente o que ela vai querer compartilhar com os outros” (GOODEY, 2002:53).

Isto é fundamental para o turismo que necessita de um patrimônio preservado e autêntico, conforme sugere a Organização Mundial do Turismo, “… o plano de ecoturismo precisa estudar as formas de conservar as tradições e as identidades culturais locais e o modo de levar benefícios a essas comunidades” (OMT, 2003).

O ecoturista é uma pessoa muito politizada, muito preocupada com as questões sociais e ambientais do mundo. Não aceita contribuir para a depredação de um local, e isso significa um ponto fundamental na hora de escolher suas viagens e destinos. Tendo isso em vista, um trabalho de interpretação do patrimônio aplicado ao ecoturismo consegue, através do desenvolvimento de atrativos e produtos baseados na comunidade local, gerar experiências e frutos satisfatórios à região, que não mais se mostrará contrária ao turismo e sim receptivo, pois se sente inserido e atuante no processo.

 

Considerações finais

Diversas Instituições ligadas direta ou indiretamente ao turismo vêm percebendo a importância da interpretação ambiental para a visitação ecoturística.

A Organização Mundial do Turismo, no Guia de Desenvolvimento Sustentável, cita a interpretação do patrimônio como um instrumento para antecipar e gerenciar a experiência humana.

“Uma boa interpretação é uma ponte que conduz as pessoas a mundos novos e fascinantes, trazendo novos entendimentos, novos discernimentos, novos entusiasmos e novos interesses.” (OMT, 2003).

O documento Diretrizes e recomendações para o planejamento e a gestão da visitação em Unidades de Conservação, produzido pelo Ministério do Meio ambiente, cita a interpretação do patrimônio como uma das diretrizes para visitação em Unidade de Conservação, dizendo:

“3.2 utilizar a interpretação ambiental como uma forma de estimular o visitante a desenvolver a consciência, a apreciação e o entendimento dos aspectos naturais e culturais, transformando a visita numa experiência enriquecedora e agradável.”

Chega-se a uma conclusão lógica ao analisar toda essa discussão em torno dessas duas vertentes do ecoturismo: turista e comunidade. Agregar valor à experiência, aspecto tão citado ultimamente como tendência das necessidades do turista, é muito mais fácil de ser alcançado quando se trabalha com as premissas da sustentabilidade. Logo a aplicação das premissas da sustentabilidade vira um bom caminho para se valorizar a experiência. Então, nota-se uma relação de causa e conseqüência bastante saudável para o resultado final da atividade turística.

 

Referências

MUTTA, Stela Maris y ALBANO, Celina (org.) Interpretar o patrimônio: um exercício do olhar. Belo Horizonte. Ed. UFMG; Território Brasilis, 2002.

TILDEN, Freeman. Interpreting our heritage. The University of North Carolina Press, Chapel Hill, 1957.

LEMOS, Amália Inês G. de. Turismo: impactos socioambientais. São Paulo: Ed. Hucitec, 1996.

RUSCHMANN, Doris. Turismo e planejamento sustentável: a proteção do meio ambiente. Campinas – SP: Ed. Papirus, 1997.

VEVERKA, John A. Por que os lugares de importância patrimonial necessitam de interpretação para a sua sobrevivência por longo tempo. In Turismo: Tendências e debates. Faculdade de Turismo Da Bahia. Ed. Edufba. 2003. Tradução: Gustavo V. Farias. Revisão: J. Lúcio de Farias.

HAM, Sam H. Interpretacion Ambiental: uma guía práctica para gente com grande ideas y presupuestos pequeños. EUA: Ed. North American Press, 1992.

CROSBY, Arturo (org.) Interpretación Ambiental y Turismo Rural. Madri: Ed. CEFAT, 1994.

BENI, Mário Carlos. Turismo: da economia de serviços à economia da experiência. In Turismo: Tendências e debates. Faculdade de Turismo da Bahia. Ed. Bureau Gráfica, 2005.

MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. Diretrizes e recomendações para o planejamento e gestão da visitação em Unidades de Conservação. Versão em construção; Agosto, 2005.

BORDAS, Eulogio. Hacia el turismo de la sociedad de ensueño: nuevas necesidades de mercado. En: Inauguración del primer semestre del curso 2002-2003 de los Estudios de Economía y Empresa de la UOC (2002: Bellaterra)

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE TURISMO. Guia de desenvolvimento do turismo sustentável. Trad. Sandra Netz – Porto Alegre: Bookman, 2003.

[1] Carolina Chagas é especialista em Turismo e Interpretação do Patrimônio com Comunidades, Planejamento Turístico e bacharel em turismo.

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